De escanteado a 'general' de Lula: quem é André Janones, protagonista da mobilização digital na campanha
Janones abraça o presidente Lula durante discurso após reeleição neste domingo (25). LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO Escanteado durante parte da campanha de r...
Janones abraça o presidente Lula durante discurso após reeleição neste domingo (25). LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO Escanteado durante parte da campanha de reeleição de Lula (PT), o deputado mineiro André Janones (Rede) encerrou a disputa celebrado pelo presidente como um dos protagonistas da mobilização digital que ajudou o petista a conquistar seu quarto mandato neste domingo (25). O reconhecimento ganhou o palco da Avenida Paulista, em São Paulo, já na madrugada de segunda-feira (26). Sob gritos de “Janones, Janones” da plateia, Lula chamou ao trio elétrico quem vem chamando de seu “general”, responsável pelo canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que atingiu mais de 10 milhões de seguidores no 2º turno da campanha. “O nosso exército é o exército da dignidade, da democracia, da educação e da saúde”, disse o presidente. A homenagem coroou uma mudança no papel de Janones na campanha. Antes à margem das decisões sobre a comunicação digital, o deputado ganhou protagonismo após Lula sair em desvantagem do primeiro turno, ao mobilizar apoiadores nas redes com um estilo combativo que até então provocava resistência em setores do PT. Após a vitória de Lula, Janones recusou o título de "o cara da virada" e atribuiu o resultado à força do petista. "A energia vem dele, a força vem dele. Eu recebi a missão de canalizar isso", afirmou o deputado, que descreveu sua atuação como uma reação aos ataques dos adversários. "A gente reagiu à covardia", declarou. Integrantes da campanha de Lula ouvidos sob reserva pelo g1 defenderam que o deputado ocupe um cargo no governo durante o quarto mandato do presidente. Membros do PT também dizem que vão convidar Janones a voltar ao partido, ao qual já foi filiado. O possível retorno seria mais uma mudança na trajetória do advogado que ganhou projeção nacional nas redes sociais antes de chegar à Câmara dos Deputados. Lula faz elogio a Janones na Avenida Paulista em discurso da vitória Da advocacia às redes sociais Nascido em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, em 1984, Janones é filho de uma empregada doméstica e de um fabricante de gaiolas para pássaros. O pai, que era cadeirante, morreu quando ele tinha dez meses. Segundo perfil publicado pela revista "Piauí", Janones estudou em escolas públicas e começou a trabalhar ainda jovem, vendendo sorvetes. Cursou direito com bolsa parcial e, durante a faculdade, trabalhou como cobrador de ônibus, escrevente do Tribunal de Justiça e assessor parlamentar. Em 2009, abriu um escritório de advocacia. Entre os serviços prestados, ajuizava ações gratuitamente para pessoas que precisavam de medicamentos ou cirurgias. O deputado federal André Janones (Avante) e o presidente Luiz Inácío Lula da Silva reprodução Em 2018, ganhou projeção nacional após publicar vídeos em apoio à greve dos caminhoneiros. Naquele ano, foi eleito deputado federal por Minas Gerais pelo Avante, com 178,6 mil votos. Durante a pandemia de Covid-19, ampliou sua presença nas redes com publicações em defesa do Auxílio Emergencial. Em 2022, lançou uma candidatura à Presidência, mas desistiu da disputa em agosto para apoiar Lula. Na época, o deputado costumava se definir como “nem de direita, nem de esquerda” e era visto por muitos analistas políticos como uma potência nas redes sociais e o único capaz de competir com a influência digital da direita liderada por Jair Bolsonaro (PL). Aliado de Lula e resistência no PT Na campanha de 2022, Janones se tornou um dos principais aliados do petista no enfrentamento ao bolsonarismo na internet. O estilo agressivo, com provocações aos adversários, também gerou resistência entre petistas que temiam efeitos sobre a imagem de Lula. Durante a campanha, por exemplo, Janones fez uma transmissão ao vivo em frente ao Templo de Salomão, da Igreja Universal, no Brás, em São Paulo. No vídeo, que ultrapassou 2,2 milhões de visualizações, o deputado fez ataques a Bolsonaro. Além disso, nos bastidores do debate presidencial da Band, em agosto daquele ano, Janones discutiu com Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro. Os dois trocaram xingamentos e precisaram ser separados por seguranças. Janones é conhecido pela habilidade de se comunicar nas redes sociais. Em 2022, chegou a criticar publicamente a esquerda por “viver em uma bolha” e afirmou que era a “hora de ir ao povo”. Apesar de ter atuado informalmente na campanha de Lula naquele ano, o deputado não foi convidado a ocupar um posto na campanha de 2026. Em entrevista à "Folha de S.Paulo" afirmou ter tomado por conta própria a iniciativa de mobilizar eleitores para tentar reverter a desvantagem de Lula. Antes de ganhar protagonismo na disputa, disse ter sido alvo de críticas de colegas de militância por alertar sobre o avanço de Flávio Bolsonaro. Em agosto, escreveu no X que o senador ultrapassaria Lula nas pesquisas. Um mês depois, voltou a alertar que o bolsonarismo desidrataria as demais candidaturas e atrairia o voto útil desses eleitores. “A maneira como o presidente se comunica nas redes sociais é ultrapassada, analógica. Não é só distribuir conteúdo, é falar a linguagem das redes”, afirmou. Caso da 'rachadinha' A trajetória do deputado também foi marcada pela investigação sobre a prática de “rachadinha” em seu gabinete — o repasse de parte dos salários de assessores ao parlamentar. O caso veio a público em 2023, quando o portal "Metrópoles" divulgou um áudio em que Janones cobrava contribuições de funcionários para cobrir prejuízos de sua campanha à Prefeitura de Ituiutaba, em 2016. Inicialmente, ele negou irregularidades. Em março de 2025, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou um acordo de não persecução penal firmado entre Janones e a Procuradoria-Geral da República (PGR). No acordo, o deputado reconheceu que um assessor havia pago despesas pessoais suas e se comprometeu a desembolsar R$ 157,8 mil, entre reparação à Câmara e prestação pecuniária, para evitar um processo criminal. Em setembro de 2026, a PGR informou ao STF que o parlamentar havia cumprido as obrigações e pediu a extinção de sua punibilidade. Medida protetiva Janones também foi alvo de uma medida protetiva obtida por sua ex-companheira, a prefeita de Ituiutaba, Leandra Guedes. O caso se tornou público em abril de 2025. Leandra o acusou de usar imagens íntimas para chantageá-la. A Justiça proibiu o deputado de se aproximar a menos de 300 metros dela, de entrar em contato com a prefeita e seus familiares e de divulgar registros de sua intimidade. Janones negou ter enviado as imagens ou cometido qualquer crime e afirmou ter sido vítima de uma armação. O processo tramita sob segredo de Justiça. A prefeita foi convidada pela equipe de Flávio Bolsonaro para comparecer ao debate da Globo entre os presidenciáveis, em uma tentativa da campanha de desestabilizar os adversários. Por precaução, Janones não compareceu ao debate para apoiar Lula. Em vídeo publicado nas redes sociais, Leandra afirmou que compareceu ao confronto “não por vingança”, mas para “dar voz às mulheres que foram vítimas de quem está no poder e tentam calar”. “Eu fui por todas nós que fomos interrompidas”, declarou.